20-01-2025
O abuso do poder na Psicoterapia

Sobre o livro
O ABUSO DO PODER NA PSICOTERAPIA
Autor: Adolf Guggenbühl-Craig
Editora: Paulus
O que é psicoterapia?
A psicoterapia é o encontro de duas psiques, do terapeuta e do paciente. Para que o processo terapêutico ocorra é de suma importância que ambas entrem em contacto e assim desenvolvam um diálogo interno capaz de proporcionar o encontro tão esperado com os recursos internos, que possibilitam que as feridas sejam curadas.
No livro «O Abuso do Poder na Psicoterapia», Roberto Gambini ressalta no prefácio que o assunto central da obra «é o mal que o analista involuntariamente pode causar aos seus pacientes quando se propõe a ajudá-los» (Guggenbühl-Craig, 2004, p. 7).
Livrai-nos do Mal? Na introdução, o autor levanta a questão dos «danos que as profissões de ajuda podem causar devido ao próprio desejo de ajudar» (Guggenbühl-Craig, 2004, p. 9).
O analista, bem como outras profissões da área de saúde, tem como objectivo auxiliar no desenvolvimento da saúde mental e física — trabalho esse que deve ter como objectivo final pessoas saudáveis, felizes e ajustadas dentro do que é socialmente aceite no contexto cultural em que vivem.
O ponto de partida do trabalho do psicoterapeuta está relacionado directamente com «ajudar» o outro a lidar com as feridas que o levam a procurar a cura. Por esse motivo, o psicoterapeuta pode inconscientemente exercer sobre o paciente questões próprias ligadas ao abuso do poder, visto que este pode manipular o processo terapêutico em seu próprio benefício.
Estar em contacto com o outro nesse processo requer entrar em contacto consigo mesmo, com as suas próprias feridas, para que os resultados sejam positivos. Caso isso não aconteça e o terapeuta se sinta superior ao paciente, deixa então a sua sombra assumir de forma negativa a condução do processo.
Percebemos a fragilidade do trabalho psicoterápico quando nos deparamos com o exercício de poder sobre o paciente. Sobrepor ao outro aquilo que está constelado em si, os seus desejos e vontades, coloca em demasiado risco o processo — porque assim o outro acaba por se submeter não ao que é seu, mas ao que é do próprio terapeuta. Existe uma projeção de conteúdos do próprio analista sobre o paciente, o que pode ocasionar o bloqueio do possível encontro com os seus próprios conteúdos, necessários para que a cura possa acontecer.
O analista está em contacto consciente com o querer servir, ajudar o seu paciente no seu sofrimento, conotando uma posição altruísta. Porém, no pólo oposto inconsciente, constela-se o «charlatão» que manipula o processo psicoterápico em seu próprio benefício.
O relacionamento entre analista e paciente gera fantasias que também fazem parte do processo — afinal, são duas psiques que entram em contacto em sua totalidade. Essas fantasias podem ser utilizadas de modo saudável quando as percebemos na relação de transferência e contratransferência: o analista devolve ao paciente esses conteúdos que fazem parte dele, ele é visto como ele é, com todas as suas emoções e sentimentos, é um ser dinâmico. Quando o analista não o faz, deixa novamente a sua sombra actuar sobre o paciente. A contratransferência, aqui, interrompe o processo criativo da psique do paciente e reduz-o às fantasias do analista projectadas sobre ele.
Incidindo novamente na sombra do «charlatão», o analista faz de tudo para manter o paciente sob o seu domínio, quer sempre exclusividade — precisa disso para «massagear o seu ego», mantendo a omnipotência. Para não entrar em contacto com as próprias feridas — cisão do arquétipo terapeuta-paciente — o analista passa a viver pelo próprio paciente para ser poupado do próprio sofrimento, o que consequentemente faz com que o paciente viva as suas experiências de acordo com as expectativas do analista. Essa vivência vicária estanca o desenvolvimento psíquico do analista, que perde a sua energia e originalidade criativa.
A sexualidade também é abordada como tema importante pelo autor. Existe um relacionamento entre analista e paciente, um fluxo emocional necessário para o avanço do processo psíquico. Aqui deparamo-nos com questões ligadas à sexualidade — as fantasias que comummente aparecem entre pacientes e analistas devem ser tratadas como expressões físicas de um relacionamento, observando as polaridades Eros e ódio.
O despertar do desejo sexual pelo analista como recurso para manter o paciente também é um «truque do charlatão». Não podemos deixar de nos ater à importância que remete esse desejo despertado na relação: ele pode ser a expressão da existência de um relacionamento positivo ou negativo entre analista e paciente. É de suma importância que o analista observe como se constelou esse desejo — a partir de forças destrutivas, onde um deseja a destruição do outro, ou de aspectos positivos que podem expressar um relacionamento frutífero.
Na relação terapêutica, o arquétipo terapeuta-ferido deve ser constelado. Quando isso não acontece, temos uma cisão do arquétipo: o terapeuta não entra em contacto consigo mesmo, com as suas feridas, fazendo com que a relação entre ambos não aconteça. Sente-se livre das feridas que nele não existem, presentes apenas no paciente — o médico reprime um pólo arquetípico.



