Viviane Panareli — Psicóloga

16-12-2024

Sobre o Trauma

Sobre o Trauma

No livro O Mundo Interior do Trauma, Donald Kalsched descreve como a psique reage internamente aos efeitos esmagadores da vida — como o mundo interno reage frente a factos traumáticos insuportáveis que ocorrem no mundo externo.

Kalsched define «Trauma como qualquer experiência que cause à criança uma dor ou ansiedade psíquica insuportável» (2013, p. 11). Essa experiência insuportável irá demandar medidas defensivas — mecanismos de defesa do ego.

O trauma pode ocorrer frente às necessidades básicas de dependência da 1ª infância — alimentação, afecto, segurança, entre outras não satisfeitas — até experiências mais intensas como o abuso infantil. Os traumas que ocorrem bem no início da primeira infância, antes que o ego e suas defesas estejam formados, criarão uma «segunda linha de defesas» que se apresentarão para que o «inconcebível» não seja vivenciado. Essas defesas formam-se no centro mais profundo da psique — o Self — por isso são chamadas «Defesas do Self» (Stein, 1967).

Na psique em desenvolvimento da criança, quando ocorre um trauma, há uma fragmentação da consciência «na qual diferentes partes se organizam de acordo com padrões arquetípicos, mais comummente díades ou sizígias formadas por seres personificados» (Jung). Ocorre a Dissociação: quando a consciência se divide em fragmentos, e se isola do inconsciente. Parte do ego regressa ao estado infantil e parte progride rápido demais para se adaptar ao mundo exterior, criando um falso eu (Winnicott, 1960a). A parte que progrediu cuida da que regrediu. No sonho, a parte regredida aparece como eu/criança — eu/animal, um «inocente» que sobrou do eu total e que parece representar um núcleo pessoal imperecível — esse núcleo Jung chamou de Self. «Violar esse núcleo é inconcebível», sendo assim defesas arquetípicas levantam-se para protegê-lo.

O Self passa a garantir a sobrevivência, não a individuação!

A defesa psicológica da Dissociação permite que a vida exterior prossiga, mas a grande custo interior. O trauma externo «termina»; os seus efeitos podem até ser esquecidos, mas as sequelas psicológicas do trauma continuam a «assombrar» o mundo interno, e elas fazem isto, como descobriu Jung, em forma de certas imagens que se agrupam em torno de um afecto intenso — o que ele chamou de «complexos de tonalidade afectiva». Esses complexos tendem a comportar-se de forma autónoma e são representados nos sonhos como seres assustadores, «inimigos» que atacam, animais ferozes, etc.

A parte que progrediu, nos sonhos, pode apresentar-se como uma figura benévola (anjo, golfinho) ou «daimónica» (maligna, demónios), que aprisiona a parte que regrediu como forma de «proteção». Estabelece-se assim um «sistema de autocuidado arquetípico da psique», arcaico, mais antigo e primitivo no desenvolvimento do que as defesas normais do ego, e típico das operações de autopreservação da psique.

Esse sistema de autocuidado executa a mediação e a auto-regulação das funções externas e internas, que normalmente seriam executadas pelo ego. Porém, a problemática existe na «resistência» que esse sistema cria contra todas as expressões desprotegidas do eu no mundo, impedindo a pessoa de viver criativamente. A psique bem-intencionada cria esse «protector/opressor», mas isso constitui uma tragédia nessas defesas arquetípicas. Para se proteger, a psique não aprende sobre o perigo real e mantém-se no nível mágico da consciência de quando o trauma original ocorreu. As novas fases da vida são rejeitadas por serem consideradas uma ameaça — então, a psique traumatizada torna-se auto-traumatizante.

A vítima do trauma defronta-se com situações na vida que a re-traumatizam: «algo mais poderoso que o ego continuamente debilita insidiosamente o progresso e destrói a esperança» (Kalsched).

Imagens «daimónicas» ou «sinistras» associadas ao trauma são apresentadas nos sonhos. «Pesquisas cuidadosas desses sonhos na situação clínica conduzem à nossa hipótese principal de que as defesas arcaicas associadas ao trauma são personificadas como imagens daimónicas arquetípicas. A imagem do sonho associada ao trauma representa o autorretrato da psique, das suas operações defensivas arcaicas» (Kalsched).

Os sonhos auxiliam no processo de cura ao fazer essa apresentação das defesas da psique, que trazem em forma de símbolos os fragmentos da vida pessoal para serem novamente integrados à consciência. Técnicas de trabalho corporal subtis, uma abordagem integrativa — corpo/mente — e técnicas artísticas também podem auxiliar no processo terapêutico com pacientes vítimas de trauma.

Bibliografia: KALSCHED, D. (2013). O Mundo Interior do Trauma. São Paulo: Editora Paulus.